Recomendações de exercício e ioga na espondilite anquilosante (EA): declaração de consenso recente
As recomendações que se seguem baseiam-se numa nova declaração de consenso publicada na revista Rheumatology, que apresenta, pela primeira vez, orientações abrangentes de exercício para apoiar profissionais de saúde no acompanhamento de pessoas com espondilite anquilosante (EA).
1) Avaliação
A prescrição individual de ioga deve assentar numa avaliação detalhada, reprodutível e bem documentada. Esta avaliação deve integrar fatores musculoesqueléticos e psicossociais, bem como medidas específicas da EA, incluindo a mobilidade axial medida de forma objetiva e a expansão torácica.
2) Segurança
Ao planear e ajustar os exercícios, é essencial ter em conta as alterações físicas associadas à EA. Isto inclui o grau de alterações ósseas, modificações do equilíbrio e da mobilidade, a presença de osteoporose e as consequências cardiorrespiratórias da doença - com especial atenção em casos mais avançados ou graves.
3) Monitorização
Deve existir monitorização adequada, com feedback regular e personalizado. A forma e a frequência desse acompanhamento devem ser ajustadas a cada pessoa, de modo a garantir progresso, segurança e correções atempadas.
4) Exercício específico para EA - mobilidade
Uma prescrição de ioga individualizada, com foco na mobilidade da coluna, é considerada fundamental, tal como a preservação da mobilidade das articulações periféricas. Os objetivos devem ser definidos a partir do que for identificado na avaliação.
Recomenda-se a construção de sequências equilibradas que combinem: - fortalecimento muscular; - componente cardiopulmonar; - aptidão funcional (equilíbrio, coordenação, marcha, agilidade e proprioceção); - alongamentos dirigidos e específicos.
5) Dosagem
Não existe uma “dose” única adequada para todas as pessoas. Por isso, recomenda-se que a frequência, intensidade, duração e tipo de exercício sejam adaptados aos resultados da avaliação, aos objetivos individuais e ao estilo de vida.
Nos programas de ioga (mobilidade, alongamentos e exercícios posturais), a consistência é o fator mais determinante. Já para outros tipos de exercício, poderá ser necessário adaptar as orientações nacionais de atividade física ao contexto da EA. O estádio da doença, o nível de atividade e a progressão devem ser ponderados para maximizar a eficácia.
6) Atividade física
Os profissionais de saúde devem incentivar a prática regular de atividade física para além do programa de ioga, com o objetivo de melhorar a saúde geral, o bem-estar e os resultados funcionais no dia a dia.
7) Adesão
É importante avaliar a adesão ao programa de ioga (e também ao exercício realizado fora dele), reforçar a motivação e promover competências de autogestão, para aumentar a probabilidade de manutenção dos ganhos ao longo do tempo.
8) Exercício adicional
O exercício adicional fora do ioga deve ser orientado pelas preferências da pessoa, de modo a favorecer a adesão e a potenciar resultados positivos.
Considerações práticas para o contexto em Portugal
Na prática, integrar a ioga com hábitos de movimento quotidiano pode facilitar a continuidade do plano. Exemplos realistas incluem caminhar regularmente (por exemplo, deslocações a pé no bairro), optar por escadas quando apropriado e incluir pequenas pausas de mobilidade durante o dia, sobretudo em trabalhos sedentários. Em pessoas com EA, estas rotinas simples podem contribuir para reduzir rigidez e apoiar a função.
Trabalho multidisciplinar e adaptação ao longo do tempo
A prescrição de exercício na EA beneficia frequentemente de uma abordagem multidisciplinar, envolvendo reumatologia, fisioterapia e, quando indicado, profissionais de exercício com experiência em condições reumáticas. À medida que os sintomas flutuam, pode ser necessário ajustar o plano (por exemplo, reduzir intensidade em fases de maior atividade da doença), mantendo sempre o objetivo de continuar ativo com segurança.
Referência
Millner, J. R., Barron, J. S., Beinke, K. M., Butterworth, R. H., Chasle, B. E., Dutton, L. J., & Zochling, J. (2015, agosto). Exercise for Ankylosing Spondylitis: an Evidence-Based Consensus Statement. In Seminars in Arthritis and Rheumatism. WB Saunders.
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