AVC: impacto, consequências e como o yoga pode apoiar a recuperação
Em média, 1 em cada 6 australianos terá um acidente vascular cerebral (AVC) ao longo da vida [1]. Isto corresponde a cerca de 51 000 AVC por ano, ou aproximadamente um a cada dez minutos.
À escala global, o AVC é a segunda causa mais frequente de morte prematura, apenas atrás da doença cardíaca, e representa também uma das principais causas de incapacidade em adultos [2]. Perante este peso, faz sentido olhar não só para a reabilitação física clássica, mas também para necessidades emocionais e psicossociais que, muitas vezes, ficam por responder.
O que acontece durante um AVC e porque é uma urgência
Um AVC ocorre quando o fornecimento de sangue ao cérebro é interrompido, seja por obstrução (vaso bloqueado) seja por rutura (vaso que rebenta). Sem oxigénio e nutrientes, as células cerebrais começam a morrer. A lesão tende a concentrar-se na zona irrigada pelo vaso afetado; contudo, quando existe rutura, a hemorragia pode aumentar a pressão dentro do crânio, ampliando o dano no tecido cerebral.
Os sinais mais comuns incluem queda de um lado da face/boca, diminuição de sensibilidade ou fraqueza num braço, e dificuldade em falar e/ou em compreender o que os outros dizem. Só um profissional de saúde pode confirmar o diagnóstico, mas se houver suspeita deve contactar de imediato o 112. Quanto maior for o atraso no tratamento, maior é o risco de lesão cerebral prolongada.
Consequências a longo prazo: para além do movimento e da fala
Após um AVC, podem persistir dificuldades de atenção, tomada de decisão, memória, fala, compreensão, bem como alterações do movimento e do equilíbrio. Estes domínios são, em regra, trabalhados em programas de reabilitação e em estratégias de gestão a longo prazo.
No entanto, existem efeitos menos visíveis - por exemplo, uma descida do bem‑estar emocional - que nem sempre recebem a mesma prioridade ou resposta adequada [3]. É precisamente aqui que intervenções de estilo de vida com suporte científico, como o yoga, podem assumir um papel relevante na recuperação, ajudando a colmatar necessidades psicológicas, sociais e espirituais após um AVC [4].
Bem‑estar emocional
A vida de uma pessoa pode mudar de forma muito marcada depois de um AVC [5]. Para além da pioria do estado de saúde, é frequente haver redução da autonomia e maior dependência de terceiros para tarefas básicas. Isto altera rotinas, relações familiares, convívio social, estilo de vida e, por vezes, a capacidade de trabalhar.
Embora alguns sobreviventes consigam adaptar-se, uma parte significativa sente dificuldades em lidar com o “novo normal”. Por isso, é comum surgirem baixas do bem‑estar emocional, depressão e ansiedade após o AVC [6].
A depressão não só torna os desafios diários mais pesados como pode interferir com o movimento e o equilíbrio [7]. Além disso, os dados indicam que a depressão pós‑AVC está associada a piores resultados físicos e a um maior risco de morte prematura [8].
Como o yoga pode ajudar após um AVC (yoga e AVC)
O yoga é um sistema de desenvolvimento pessoal com uma história de milhares de anos, com origem em tradições contemplativas do sul da Ásia. No contexto moderno, é frequentemente utilizado como prática integrada de movimento, respiração e atenção.
O objetivo central do yoga é promover uma ligação entre mente e corpo. Isto é particularmente pertinente para quem teve um AVC, já que as consequências podem ser simultaneamente físicas e cognitivo‑emocionais. A abordagem holística do yoga entende a saúde como a capacidade de realizar o próprio potencial mental, físico e social, e não apenas como ausência de doença [9].
Muitos sobreviventes apresentam fadiga e baixa tolerância ao exercício, o que pode dificultar a adesão a formatos tradicionais de treino. Em contrapartida, o yoga pode ser adaptado e individualizado, ajustando posições e tarefas às capacidades de cada pessoa, mesmo quando existem limitações de mobilidade. Por isso, pode tornar-se uma alternativa mais acessível do que outras formas de exercício para manter atividade após um AVC [10].
Com maior acessibilidade, pode também aumentar a confiança e incentivar a participação noutras atividades físicas e nas tarefas do dia a dia [11]. Num estudo realizado nos Estados Unidos, oito semanas de yoga estiveram associadas a melhorias no equilíbrio e a uma redução do medo de cair em sobreviventes de AVC [11].
Meditação e mindfulness
Para lá do componente físico, o yoga inclui práticas contemplativas, como a meditação [12]. Na prática, isto envolve dirigir a atenção para a respiração e para as sensações corporais, quer em movimento, quer em imobilidade.
A meditação regular tem sido associada ao desenvolvimento de mindfulness - a capacidade de manter a atenção no momento presente de forma intencional, aberta e aceitante. Programas de mindfulness têm sido ligados a benefícios que incluem melhoria do bem‑estar emocional e de aspetos da função cognitiva [13].
Alguns autores sugerem que técnicas de mindfulness podem envolver o cérebro de modos que fortalecem redes relacionadas com atenção, tomada de decisão, memória de trabalho e regulação emocional [14]. Independentemente do mecanismo exato, sentir-se capaz de lidar e recuperar controlo promove uma sensação de autoeficácia, o que tende a melhorar a gestão do stress e o bem‑estar emocional [15]. O yoga pode ser uma via prática para treinar essa capacidade de resposta, especialmente em momentos exigentes.
Integração com a reabilitação em Portugal: o que considerar
Em Portugal, a reabilitação após AVC costuma envolver fisioterapia, terapia da fala e terapia ocupacional, muitas vezes iniciadas ainda no internamento e continuadas em ambulatório. O yoga não substitui estes cuidados, mas pode funcionar como complemento quando existe estabilidade clínica e orientação adequada.
Ao procurar uma prática de yoga pós‑AVC, é útil privilegiar aulas com possibilidade de adaptações, uso de apoios (cadeira, blocos, cintos) e progressão gradual, de modo a respeitar limitações de equilíbrio, espasticidade ou fadiga. Também é sensato confirmar com a equipa de saúde se existem restrições (por exemplo, em pessoas com risco elevado de quedas ou alterações de tensão arterial).
Começar
As sessões de yoga na Inner Focus Physiotherapy são realizadas por fisioterapeutas registados com formação em reabilitação neurológica. Antes de iniciar, são feitas avaliações individuais privadas para identificar limitações e necessidades, e os tratamentos de yoga decorrem em regime privado ou em pequenos grupos totalmente supervisionados.
Para mais informações sobre como iniciar um programa de yoga com um instrutor que é também fisioterapeuta experiente, visite www.innerfocusphysio.com.au ou ligue 93821339.
REFERÊNCIAS:
- https://strokefoundation.com.au/…/fac…/no-postcode-untouched
- Feigin, V. L., Forouzanfar, M. H., Krishnamurthi, R., Mensah, G. A., Connor, M., Bennett, D. A., ... & Murray, C. (2014). Global and regional burden of stroke during 1990–2010: findings from the Global Burden of Disease Study 2010. The Lancet, 383(9913), 245-255.
- Fang, J., Chen, L., Chen, L., Wang, C., Keeler, C. L., Ma, R., ... & Ji, C. (2014). Integrative medicine for subacute stroke rehabilitation: a study protocol for a multicentre, randomised, controlled trial. BMJ open, 4(12), e007080.
- Asimina Lazaridou, Phaethon Philbrook, and Aria A. Tzika, “Yoga and Mindfulness as Therapeutic Interventions for Stroke Rehabilitation: A Systematic Review,” Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, vol. 2013, Article ID 357108, 9 pages, 2013. doi:10.1155/2013/357108
- Garrett, R., Immink, M. A., & Hillier, S. (2011). Becoming connected: the lived experience of yoga participation after stroke. Disability and rehabilitation, 33(25-26), 2404-2415.
- Anderson, C., Hackett, M., Parag, V., & Yapa, C. (2005). Frequency of Depression After Stroke: A Systematic Review of Observational Studies.
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- Nash, J. D., & Newberg, A. (2013). Toward a unifying taxonomy and definition for meditation. Frontiers in psychology, 4.
- Kabat-Zinn, J. (1982). An outpatient program in behavioral medicine for chronic pain patients based on the practice of mindfulness meditation: Theoretical considerations and preliminary results. General hospital psychiatry, 4(1), 33-47.
- http://www.cmu.edu/…/f…/mindfulness-training-and-health.html
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