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Exercício moderado aumenta as células estaminais neurais no cérebro envelhecido

Homem sentado num banco à beira-rio, atando ténis desportivos, com garrafa de água e bloco de notas ao lado.

Exercício moderado aumenta as células estaminais neurais no cérebro envelhecido

Pela primeira vez, neurocientistas conseguiram demonstrar que a prática de exercício moderado eleva de forma significativa o número de células estaminais neurais num cérebro em envelhecimento.

Estudo do Queensland Brain Institute (QBI) sobre exercício e envelhecimento cerebral

Num trabalho publicado na revista Stem Cells, o Dr. Daniel Blackmore e a sua equipa, do Queensland Brain Institute (QBI), mostraram que o exercício moderado provoca um aumento direto do número de células estaminais no cérebro envelhecido.

Esta evidência vem contrariar a ideia ainda comum de que nascemos com um número “fixo” de neurónios. Na verdade, há já algum tempo que a neurociência reconhece que, em cérebros saudáveis, a formação de novos neurónios é um processo contínuo e pode acompanhar-nos ao longo de toda a vida.

Produção de novos neurónios: um processo contínuo que diminui com a idade

Apesar de a neurogénese ocorrer de forma persistente, também se sabe há mais de uma década que a quantidade de novos neurónios produzidos diminui gradualmente à medida que envelhecemos.

Segundo o neurocientista do QBI, Dr. Blackmore, o interesse dos investigadores tem-se centrado em encontrar estratégias capazes de estimular a produção neuronal, ajudando a contrariar a redução associada à idade ou a doenças.

Exercício moderado e células estaminais neurais: evidência experimental no cérebro envelhecido

De acordo com o Dr. Blackmore, os resultados apontam para um impacto muito favorável do exercício moderado, quer quando iniciado cedo, quer quando mantido até fases mais avançadas da vida.

Em modelos controlados de envelhecimento, os animais que participaram em exercício voluntário (roda de corrida) produziram um número de células estaminais neurais significativamente superior ao observado em animais da mesma idade que não praticaram exercício (sem roda de corrida).

Como o cérebro responde ao ambiente e ao exercício

Para o Dr. Blackmore, compreender o mecanismo pelo qual o número de células estaminais neurais se altera poderá aprofundar de forma decisiva o nosso conhecimento sobre a forma como o cérebro reage ao meio envolvente.

O objetivo final passa por perceber como potenciar a capacidade regenerativa do cérebro e, a partir daí, promover tratamentos novos e mais eficazes para problemas associados a traumatismos, doenças ou mesmo ao envelhecimento normal.

O investigador sublinha ainda que é particularmente estimulante verificar que o cérebro, mesmo em idade avançada, mantém capacidade para responder de forma positiva - algo que amplia a janela temporal em que intervenções podem ser úteis.

A importância das células estaminais para a função cerebral e a saúde mental

O Diretor do QBI, Professor Perry Bartlett FAA, afirmou que o estudo representa mais um avanço relevante na compreensão do motivo pelo qual as células estaminais neurais são tão importantes para o funcionamento cerebral.

Segundo o Professor Bartlett, estes dados são os primeiros, obtidos de forma experimental, a demonstrar que é possível alterar a propensão do cérebro para formar novos neurónios ao aumentar o número de células estaminais - mesmo em animais envelhecidos.

O investigador acrescentou que agora é possível demonstrar que o exercício, por si só, está diretamente ligado ao aumento do número de células estaminais no cérebro.

Como as células estaminais dão origem a neurónios, uma boa disponibilidade destas células é crucial para manter um “reservatório” neuronal adequado, considerado essencial para uma boa saúde mental.

O que isto pode significar para a vida em Portugal: hábitos e consistência

Embora o estudo tenha sido realizado em modelos animais, a mensagem prática é coerente com recomendações comuns de saúde: a consistência pode ser tão importante quanto a intensidade. Em contexto português, isto pode traduzir-se em rotinas acessíveis como caminhar a passo vivo, pedalar em ciclovias urbanas ou fazer subidas moderadas, privilegiando a regularidade ao longo das semanas.

Além disso, o conceito de “exercício moderado” tende a alinhar-se com atividades que aumentam a frequência cardíaca e a respiração sem impedir a conversa. Em termos de adoção, isto é relevante porque torna a intervenção mais realista para pessoas mais velhas, que frequentemente procuram opções seguras e sustentáveis.

Implicações futuras: regeneração cerebral e desenvolvimento de terapias

Estes resultados reforçam a possibilidade de combinar estratégias comportamentais (como o exercício) com abordagens médicas futuras que procurem ativar mecanismos regenerativos do cérebro. Se os mecanismos biológicos subjacentes forem plenamente compreendidos, poderá tornar-se viável desenhar intervenções mais direcionadas para situações em que o envelhecimento ou a doença comprometem a renovação neuronal.

Ao mesmo tempo, o estudo apoia a ideia de que intervenções não farmacológicas podem ter um papel relevante na preservação da função cerebral, complementando a prevenção e os cuidados de saúde ao longo do envelhecimento.


REFERÊNCIA:

Blackmore, D. G., Golmohammadi, M. G., Large, B., Waters, M. J., & Rietze, R. L. (2009). Exercise Increases Neural Stem Cell Number in a Growth Hormone‐Dependent Manner, Augmenting the Regenerative Response in Aged Mice. Stem Cells, 27(8), 2044-2052.

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