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O exercício pode bloquear constipações: evidência sobre exercício aeróbio e o sistema imunitário

Mulher a correr junto à praia, segurando uma garrafa de água, com tapete de ioga sobre um banco.

1. O exercício pode bloquear constipações: evidência sobre exercício aeróbio e o sistema imunitário

Estar em boa forma - ou, pelo menos, sentir-se em boa forma - parece associar-se a menos infeções do trato respiratório superior, de acordo com investigadores.

Ao longo de um período de 12 semanas, as pessoas que afirmaram fazer exercício pelo menos cinco dias por semana tiveram menos 43% dias com infeção respiratória superior do que aquelas que treinaram no máximo um dia por semana (P<0,05), segundo David Nieman, DrPH, da Appalachian State University (Kannapolis, Carolina do Norte, EUA) e colaboradores.

De forma semelhante, os participantes que se classificaram como muito “em forma” reportaram menos 46% dias com infeção respiratória do que os que se consideraram com baixa condição física (P<0,05), conforme publicado online no British Journal of Sports Medicine.

Os autores referiram que estes resultados estão alinhados com estudos epidemiológicos e ensaios aleatorizados anteriores. Embora o mecanismo exato continue por esclarecer, a associação pode ser explicada pelo impacto do exercício na resposta imunitária do organismo.

Nieman e a equipa destacaram que cada sessão de exercício aeróbio provoca um aumento transitório na recirculação de imunoglobulinas, neutrófilos e células “natural killer”, que desempenham um papel central nas defesas imunitárias inatas. Dados em animais sugerem ainda que os macrófagos pulmonares podem ser determinantes na mediação do efeito protetor do exercício moderado na redução da suscetibilidade a infeções.

Os investigadores acrescentaram que, durante exercício aeróbio moderado, não se observa elevação de hormonas de stress (que podem suprimir a imunidade) nem de citocinas pró- e anti-inflamatórias que normalmente refletem atividade metabólica muito intensa.

Apesar de o sistema imunitário tender a regressar aos níveis pré-exercício poucas horas após o fim da sessão, cada treino pode reforçar a “vigilância imunitária” contra agentes patogénicos, contribuindo para diminuir a incidência global de infeções respiratórias superiores e a intensidade dos sintomas.

Como foi feito o estudo (participantes, períodos e medição de sintomas)

A equipa acompanhou 1.002 adultos, até aos 85 anos, em dois períodos de 12 semanas ao longo de 2008; metade participou no outono e a outra metade no inverno.

Para quantificar o impacto das constipações, foi utilizado o Wisconsin Upper Respiratory Symptom Survey, um instrumento diário de registo considerado fiável e válido.

Os participantes indicaram quantos dias por semana faziam exercício no tempo livre e classificaram a sua aptidão física numa escala de Likert de 10 pontos. Com base nessas respostas, foram agrupados em tercis.

Resultados ajustados: frequência de exercício, aptidão percebida e dias doentes

Após ajustamentos para idade, sexo, anos de escolaridade, estado civil, nível de stress mental, índice de massa corporal (IMC) e consumo de fruta, quem reportou exercício em pelo menos cinco dias por semana apresentou, em média, significativamente menos dias com infeção do trato respiratório superior do que o grupo que menos treinava (4,41 vs. 8,18 dias; P<0,05).

Um padrão muito semelhante foi observado quando se comparou o tercil de maior aptidão com o de menor aptidão (4,89 vs. 8,60 dias; P<0,05).

Além do número de dias doente, também a gravidade e a sintomatologia das infeções foram mais baixas: verificou-se uma redução de 32% a 41% entre os tercis mais elevados e mais baixos de atividade aeróbia e de condição física (P<0,05 em todas as comparações). Também houve reduções estatisticamente significativas no tercil intermédio.

Num modelo centrado na aptidão percebida, vários fatores surgiram associados a menos dias com infeção respiratória superior: maior idade, aptidão alta ou média, menor escolaridade, ser casado ou ser homem, IMC elevado versus baixo, e ingerir três ou mais porções de fruta por dia (P<0,05 para todos).

Com exceção do consumo de fruta, estes mesmos fatores também se mantiveram significativos num modelo que analisou a frequência semanal de exercício.

Limitações reconhecidas pelos autores

Os investigadores sublinharam que o estudo ficou limitado por não ajustar todos os potenciais fatores de confusão. Em particular, não foi considerada a exposição a agentes patogénicos no local de trabalho e no domicílio.

O que isto pode significar na prática em Portugal

Na vida real, a exposição a vírus varia muito - por exemplo, entre quem usa transportes públicos diariamente em Lisboa ou no Porto e quem trabalha sobretudo em casa. Ainda assim, os dados sugerem que manter uma rotina consistente de exercício aeróbio moderado (por exemplo, caminhar a passo rápido, correr ligeiro ou pedalar) pode ser uma estratégia complementar para reduzir dias com sintomas de constipação.

Também é relevante notar que o estudo avaliou exercício no tempo livre. Para muitas pessoas, incorporar atividade física em deslocações (subir escadas, ir a pé a pequenas distâncias, descer uma paragem antes) pode ajudar a aproximar-se dos padrões associados a melhores resultados.


2. Treino de mindfulness:

Em julho de 2012, o Dr. Bruce Barrett e 14 coautores da University of Wisconsin publicaram nos Annals of Family Medicine um ensaio prospetivo, aleatorizado e controlado, com o objetivo de testar se um programa de 8 semanas de meditação mindfulness ou um programa de 8 semanas de exercício sustentado de intensidade moderada diferiria de um grupo controlo observacional na prevenção de infeções respiratórias agudas (IRAs).

Participaram 149 adultos recrutados na comunidade, maioritariamente mulheres brancas, todos com mais de 50 anos, que completaram o ensaio. Durante uma única época de constipações e gripe, os investigadores avaliaram a incidência, a duração e a gravidade das IRAs.

Foram registados 27, 26 e 40 episódios, correspondentes a 257, 241 e 453 dias totais de doença nos grupos de meditação, exercício e controlo, respetivamente.

As pontuações médias globais de gravidade foram 144 no grupo de meditação, 248 no grupo de exercício e 358 no grupo controlo.

Quanto ao impacto laboral, houve apenas 16 dias de ausência por IRA no grupo de meditação, comparando com 32 dias no grupo de exercício e 67 dias perdidos no grupo controlo.

Os autores consideraram estas diferenças estatística e clinicamente significativas. O estudo teve financiamento dos National Institutes of Health (NIH).

Apesar disso, foi salientada a necessidade de um novo estudo para confirmar resultados tão expressivos. Este artigo foi considerado importante, relevante e suficientemente robusto para ser selecionado pelo BMJ Evidence Centre, da prestigiada McMaster University, para a série Evidence Updates.

Yoga como ponte entre mindfulness e exercício moderado

O yoga pode funcionar como uma forma de meditação mindful durante exercício sustentado de intensidade moderada, permitindo uma utilização mais eficiente do tempo ao combinar, numa só prática, benefícios associados às duas abordagens descritas acima.

Aspetos relacionados: sono, stress e consistência ao longo do ano

Uma dimensão frequentemente ligada tanto ao exercício como ao mindfulness - e que influencia a suscetibilidade a infeções - é o sono. Rotinas de sono consistentes e uma duração adequada podem modular a resposta imunitária e a recuperação após treinos, sobretudo nos meses de inverno.

Além disso, a consistência ao longo do ano tende a ser mais importante do que “picos” pontuais de atividade. Em épocas de maior circulação viral, manter exercício moderado regular e práticas de atenção plena pode ser mais sustentável (e potencialmente mais útil) do que aumentar de forma brusca a carga de treino, que pode levar a fadiga e pior adesão.

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