Da Dor Crónica à Yoga: uma Mudança de Paradigma na Experiência da Dor e na Evidência
A fotografia acima sou eu a praticar hoje em casa do meu professor (Kale). No contexto de escrever sobre experiência de dor, evidência e yoga, vale a pena referir que, quando conheci o Kale, em 2009, mal conseguia mexer-me. Depois de 2 anos de dor crónica - e do que hoje reconheço como sensibilização, evitamento por medo e marcadores clássicos de cronicidade - eu praticamente não conseguia sequer sentar-me no chão (dores na anca e no joelho), e agachar estava completamente fora de questão (rigidez excessiva, demasiada dor).
Durante mais de 2 anos, a minha capacidade física ficou severamente limitada. Actividades do dia a dia que muita gente dá por garantidas eram difíceis; as opções de lazer mais agradáveis estavam, sem dúvida, fora do meu alcance (como o surf ou o exercício físico em geral); até conviver com conforto se tornava, frustrantemente, complicado.
O Desencanto com o Modelo Biomédico e a Procura de Alternativas
Como consequência natural, comecei a sentir uma desilusão compreensível com a minha própria profissão. Apesar de ter recebido meses - e, no final, anos - de tratamentos e conselhos de fisioterapia para o meu problema, tornou-se demasiado evidente a falta de eficácia face à dor persistente e, sobretudo, a dependência do modelo biomédico.
Assim, depois de mais de 2 anos como doente, numa persistência infrutífera dentro do modelo convencional de fisioterapia em clínica privada/abordagem biomédica, decidi abandonar esse caminho para aprender yoga. Para que conste, esse percurso incluiu exames dispendiosos e desnecessários, diagnósticos duvidosos, linguagem inflamatória e incorrecta, múltiplas injecções, receitas de medicação, tratamentos passivos e referenciações para cirurgiões - intervenções que, incidentalmente, carecem de evidência e para as quais existe boa evidência de que podem, na realidade, causar dano.
Yoga, Movimento e Bem-Estar: Uma Abordagem Inovadora
Ao longo desse processo, deparei-me com uma forma de encarar o movimento, o exercício e o bem-estar que achei inovadora, intrigante e profundamente cativante.
Mais do que um meio para “tirar sintomas”, a yoga (quando bem ensinada) oferece a quem se interessa por ela um percurso de estudo para a vida inteira e uma prática concreta que potencia ao máximo as capacidades físicas e mentais.
Quando a Investigação Científica Começa a Convergir com a Prática
Em paralelo, comecei a reparar que a investigação científica sobre dor e disfunção do movimento estava a aproximar-se, cada vez mais, do que eu estava a fazer. Estratégias baseadas em movimento graduado e consciente, com ênfase na redução do medo de mexer, no aumento da auto-eficácia, na auto-compreensão e na auto-capacitação, foram surgindo na literatura como tratamentos eficazes sustentados por evidência.
A yoga, quando é cuidadosamente adaptada e ensinada de forma individual (ver Apêndice I e II), pode - se for bem leccionada - responder a estes pontos. O problema é que, em muitos casos, esta evidência ainda não alterou a prática clínica nem os modelos de negócio na saúde. Muitos profissionais acabam por não saber como integrar esta informação e como aplicar, de forma pragmática, o modelo biopsicossocial.
Yoga e Dor Crónica: Integrar o Modelo Biopsicossocial na Prática Clínica
O que a yoga oferece - desde que seja orientada com rigor, competência e conhecimento, por um professor com experiência empírica subjectiva na arte e que a complemente com boa evidência - é um caminho muito forte para apoiar esta mudança de paradigma na clínica.
Além disso, quando a yoga é bem instruída e combinada com princípios baseados na evidência e com educação de qualidade em gestão da dor, pode ajudar a quebrar o ciclo da dor. Esse processo pode, por sua vez, permitir alterações neuroplásticas capazes de contrariar o que por vezes se descreve como o “lado negro da neuroplasticidade”.
Um ponto essencial para leitores em Portugal é perceber que esta mudança não exige contextos “perfeitos” nem recursos extraordinários: pode começar com sessões curtas, progressivas e orientadas, com ajustes à realidade de cada pessoa (por exemplo, integrar práticas simples em casa, num tapete, e complementar com caminhadas graduadas). O foco não é “forçar” amplitude nem procurar performance, mas sim reconstruir confiança no movimento com segurança e consistência.
Também é útil reconhecer que a adopção de uma abordagem biopsicossocial não invalida a medicina nem os cuidados de saúde quando necessários; em vez disso, organiza prioridades. Em muitos casos de dor persistente, a combinação entre educação (com linguagem não alarmista), movimento progressivo, estratégias para lidar com a dor e suporte para reduzir medo e ansiedade pode fazer mais pela funcionalidade do que a acumulação de intervenções passivas.
APÊNDICE I
Factores que aumentam a sensibilização (abrem a “porta da dor”)
Modelo Biomédico e Tratamento
- Catastrofização
- Ansiedade e medo relacionados com a dor
- Stress
- Sentimento de impotência
Factores que diminuem a sensibilização (fecham a “porta da dor”)
Modelo Biopsicossocial e Yoga
- Auto-eficácia
- Estratégias de coping para a dor
- Prontidão para mudar
- Aceitação
APÊNDICE II
Referências:
Vlaeyen, J. W., & Linton, S. J. (2000). Fear-avoidance and its consequences in chronic musculoskeletal pain: a state of the art. Pain, 85(3), 317–332.
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