Ciática grave e hérnia discal lombar: cirurgia precoce vs tratamento conservador
A evidência clínica disponível sugere que, em episódios agudos de ciática, a estratégia terapêutica escolhida no início (cirurgia precoce ou tratamento conservador prolongado) tende a ter pouca influência no prognóstico a longo prazo. Vários ensaios clínicos aleatorizados e uma revisão sistemática apontam para melhorias relevantes em ambos os grupos, com diferenças reduzidas - ou inexistentes - quando se avaliam resultados ao fim de 1 a 2 anos.
Ensaios clínicos: o que mostram os estudos aleatorizados
Ensaio grande (n = 283): cirurgia precoce vs abordagem conservadora prolongada com cirurgia se necessário
Num ensaio aleatorizado de grande dimensão (n = 283) e com baixo risco de enviesamento, comparou-se uma intervenção cirúrgica precoce com um plano de tratamento conservador prolongado, reservando a cirurgia para os casos em que fosse necessária, em doentes com ciática grave com duração de 6 a 12 semanas.
Ao fim de 1 ano de seguimento, 95% dos participantes em ambos os grupos reportaram recuperação considerada satisfatória, não se observando diferenças relevantes entre estratégias. Esta ausência de diferenças manteve-se no ano seguinte, sugerindo que, no horizonte temporal de 2 anos, o tipo de abordagem inicial não altera de forma substancial o desfecho global. [1]
Ensaio pequeno (n = 56): microdiscectomia vs tratamento conservador
Um ensaio de menor dimensão (n = 56) comparou a microdiscectomia com o tratamento conservador em pessoas com ciática entre 6 e 12 semanas. No conjunto, não se identificaram diferenças estatisticamente significativas na dor na perna, na dor lombar, nem na incapacidade subjetiva ao longo de 2 anos de acompanhamento. [2]
Ensaio grande (n = 501): ciática ≥ 6 semanas com hérnia discal confirmada
Num estudo robusto (n = 501) e também com baixo risco de enviesamento, realizado em doentes com ciática há pelo menos 6 semanas e com hérnia discal confirmada, verificou-se melhoria marcada ao longo de 2 anos tanto no grupo cirúrgico como no grupo tratado de forma conservadora, em todos os desfechos primários e secundários.
A análise por intenção de tratar não demonstrou diferenças estatisticamente significativas em nenhum dos desfechos primários, reforçando a ideia de que ambos os caminhos terapêuticos podem conduzir a evolução favorável semelhante no médio prazo. [3]
Revisão sistemática (2015): síntese de múltiplos ensaios
Uma revisão sistemática publicada em 2015, que agregou resultados de vários ensaios, concluiu que a maioria dos estudos não revela diferenças substanciais entre grupos tratados cirurgicamente e grupos tratados de forma conservadora para ciática. Esta tendência geral, reportada pela revisão, sustenta que a superioridade da cirurgia não é consistente quando se avaliam resultados globais ao longo do tempo.
Implicações clínicas: prognóstico e decisão terapêutica
Considerando os dados apresentados, torna-se evidente que o tratamento administrado durante um ataque agudo de ciática não parece ter um impacto determinante no prognóstico a longo prazo. [4] Em termos práticos, isto significa que, para muitas pessoas, a escolha entre operar cedo e iniciar com medidas conservadoras pode ser orientada por fatores como a intensidade dos sintomas, a tolerância à dor, a evolução funcional, as preferências do doente e a presença de sinais de alarme.
Cirurgia lombar (discectomia): resultados a longo prazo, custos e riscos
Em síntese, não existe evidência convincente de que a discectomia lombar seja superior ao tratamento conservador quando o objetivo principal são resultados a longo prazo. Além disso, os custos associados à cirurgia tendem a ser superiores, quer para o doente, quer para o sistema de saúde. Acresce que as potenciais complicações cirúrgicas são, em geral, mais frequentes e potencialmente mais graves do que as associadas a estratégias conservadoras.
Evolução natural da ciática e degenerescência discal
Os resultados globais destes estudos são compatíveis com a perspetiva de que episódios agudos de ciática, na maioria dos casos, seguem um curso relativamente curto e melhoram ao longo do tempo, independentemente do tratamento escolhido. É também amplamente aceite que estes episódios se relacionam com a degenerescência do disco lombar.
Contudo, importa sublinhar um aspeto relevante: sinais de degenerescência discal são comuns em pessoas sem qualquer sintoma, o que indica que achados imagiológicos por si só nem sempre explicam a dor ou a incapacidade. [5]
Aspetos adicionais relevantes para leitores em Portugal
Na prática clínica em Portugal, é frequente iniciar-se com medidas conservadoras (como analgesia, orientação de atividade e fisioterapia), reservando a cirurgia para situações com défices neurológicos progressivos, dor intratável apesar de tratamento adequado, ou quando a limitação funcional se prolonga. Esta abordagem faseada pode ser especialmente útil quando se pretende equilibrar rapidez de alívio, riscos do procedimento e utilização eficiente de recursos.
Outro ponto essencial é a interpretação prudente de exames como a ressonância magnética: uma hérnia discal pode estar presente sem sintomas, e a decisão terapêutica deve integrar a história clínica, o exame neurológico e a evolução ao longo das semanas. Em muitos casos, a reavaliação periódica e um plano estruturado de recuperação funcional podem ser tão determinantes quanto a escolha inicial entre operar ou não.
REFERÊNCIAS:
- Peul WC, van Houwelingen HC, van den Hout WB, Brand R, Eekhof JA, Tans JT, Thomeer RT, Koes BW (2007) Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica. N Engl J Med 356:2245–2256
- Osterman H, Seitsalo S, Karppinen J, Malmivaara A (2006) Effectiveness of microdiscectomy for lumbar disc herniation: a randomized controlled trial with 2 years of follow-up. Spine (Phila Pa 1976) 31:2409–2414
- Weinstein JN, Tosteson TD, Lurie JD, Tosteson AN, Hanscom B, Skinner JS, Abdu WA, Hilibrand AS, Boden SD, Deyo RA (2006) Surgical vs nonoperative treatment for lumbar disk herniation: the Spine Patient Outcomes Research Trial (SPORT): a randomized trial. JAMA 296:2441–2450
- Anders Hakelius (1970) Prognosis in Sciatica: A Clinical Follow-Up of Surgical and Non-Surgical Treatment, Acta Orthopaedica Scandinavica, 41:sup129, 1-76
- Systematic Literature Review of Imaging Features of Spinal Degeneration in Asymptomatic Populations. Brinjikji W, Luetmher PH et al. AJNR, 2014 Nov 27 (Epub ahead of print)
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