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Porque é que as sequências tradicionais continuam a fazer sentido (e quando deixam de fazer)

Mulher pratica ioga em casa, sentada no tapete com computador portátil em frente e plantas ao fundo.

Há diversos padrões de movimento presentes nas sequências de ioga contemporâneas que refletem, de forma clara, o contexto cultural em que o ioga surgiu.

Porque é que as sequências tradicionais continuam a fazer sentido (e quando deixam de fazer)

Uma postura como Ardha Matsyendrasana ilustra bem esta realidade. Na prática, pede três capacidades específicas: um agachamento profundo, uma posição sentada confortável de pernas cruzadas e uma rotação (torção) da coluna. Tradicionalmente, o propósito desta postura passa por estimular os órgãos abdominais e por criar uma espécie de “selo” - um bandha - na zona do abdómen.

O estilo de vida moderno e a perda de movimentos essenciais do dia a dia

Em muitas sociedades ocidentais industrializadas, agachar e sentar no chão (incluindo sentar de pernas cruzadas) deixaram de ser actividades de vida diária (AVD) relevantes. Com as comodidades actuais, é perfeitamente possível passar anos sem precisar de fazer um agachamento profundo ou de permanecer sentado no chão. Com o tempo, isto pode traduzir-se numa perda efectiva dessas capacidades, devido ao aumento de rigidez e à consequente diminuição de elasticidade dos músculos à volta das ancas e da bacia.

Nota: isto pode ser diferente em algumas culturas orientais modernizadas onde as sanitas de cócoras continuam a ser comuns. Nesses contextos, o agachamento é uma AVD indispensável e, por isso, a competência nesse padrão de movimento torna-se rapidamente uma prioridade.

Onde entram as sequências clássicas de ioga

É aqui que as sequências tradicionais “básicas” se tornam relevantes. Em Light on Yoga, torções como Marichyasana e Ardha Matsyendrasana surgem relativamente cedo nas propostas de sequenciação para “iniciantes”.

Do mesmo modo, na série primária de Ashtanga, a incapacidade de agachar ou de se sentar no chão com as ancas abertas tende a limitar a prática sobretudo às saudações ao sol e às posturas de pé, deixando uma parte significativa da sequência no solo praticamente fora de alcance.

Preparação específica: eficiência, segurança e melhor uso do tempo

Consoante a pessoa, posturas e movimentos preparatórios podem ser particularmente úteis - e podem ser integrados de forma natural na prática. Uma série introdutória (ou de iniciantes) baseada nestes padrões funcionais de movimento pode representar um uso eficaz do tempo, sobretudo quando o objectivo é corrigir limitações funcionais e reduzir o risco de lesão ou de esforço excessivo. Isto ganha ainda mais importância porque, para quem vive rotinas aceleradas, o tempo disponível para praticar ioga costuma ser reduzido.

Variações de Malasana, variações de Utkatasana, variações de “horse stance” e outros movimentos preparatórios comuns em danças tradicionais e artes marciais podem ajudar a recuperar amplitudes de movimento perdidas, promovendo uma forma de se mover com menos restrição e com mais fluidez.

Abaixo apresenta-se um exemplo de como se poderia estruturar uma sequência curta com estes princípios em mente. (Ainda assim, qualquer sequência deste tipo deve ser prescrita individualmente, para responder às necessidades específicas de cada aluno.)

Contexto cultural: sentar e mover-se “à antiga” para compreender o ioga de hoje

Observar formas tradicionais de sentar e de se mover ajuda a enquadrar melhor as sequências clássicas e a perceber porque é que, para certas pessoas, o trabalho de preparação é indispensável. Há quem tenha, por natureza, boa abertura das ancas ou consiga agachar sem dificuldades; nesses casos, as sequências tradicionais podem ser adequadas sem alterações.

Quando isso acontece, porém, costuma dever-se mais a uma combinação de predisposição individual e histórico de movimento do que a um “desenho intencional” das sequências como exportações perfeitas e sem ajustes para a vida moderna.

Um aspecto prático para Portugal: cadeiras, secretárias e carro

Em Portugal, é comum passarmos muitas horas sentados - no trabalho, no carro e em casa - o que tende a encurtar flexores da anca e a reduzir a mobilidade da bacia. Além disso, o hábito de viver em casa com cadeiras e sofás, em vez de no chão, faz com que a posição sentada de pernas cruzadas se torne menos familiar e menos confortável. Por isso, inserir trabalho progressivo de agachamento e de mobilidade das ancas pode ser uma ponte realista entre a prática tradicional e as exigências do quotidiano.

Sinais úteis para ajustar a prática (sem forçar)

Outro ponto relacionado, muitas vezes ignorado, é a diferença entre “rigidez” e “sensação de bloqueio articular”. Se durante o agachamento profundo ou nas torções surgir dor aguda, formigueiro ou sensação de pinçamento na anca, a progressão deve ser repensada. Nestes casos, reduzir amplitude, usar apoios (blocos, mantas) e dar prioridade a variações preparatórias pode ser decisivo para continuar a evoluir com segurança.

Agachamento (Squatting) no ioga: base para Ardha Matsyendrasana e Marichyasana

Sentar “à indiana” (Indian Cobblers Sitting)

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