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Demonstrar Hatha Yoga aos habitantes de Haridwar: peregrinação, história e devoção no Ganges

Grupo de pessoas em meditação à beira de um rio, com uma cerimônia e oferendas no centro.

Demonstrar Hatha Yoga aos habitantes de Haridwar: peregrinação, história e devoção no Ganges

Haridwar é uma cidade antiquíssima e um dos mais importantes destinos de peregrinação hindu no norte da Índia, no estado de Uttarakhand, precisamente no ponto em que o rio Ganges deixa as primeiras encostas do Himalaia e segue para as planícies. É também um dos quatro locais associados à Kumbh Mela, uma enorme peregrinação de fé em que multidões se reúnem para se banharem no rio sagrado.

A Kumbh Mela é frequentemente descrita como o maior encontro pacífico do mundo. No caso de Haridwar, há registos do evento pelo menos desde o início do século XVII, embora existam referências a versões anteriores que remontam ao ano 644 d.C.

O que observei no quotidiano religioso em Haridwar

Nas minhas interações em Haridwar, a maioria das pessoas locais parecia seguir sobretudo costumes hindus ortodoxos: oração a Shiva e banhos rituais no Ganges. A devoção era visível e constante, e a atmosfera espiritual fazia parte do ritmo normal da cidade.

Entre as figuras mais marcantes estavam os sadhus, muito numerosos, envolvidos em práticas variadas: desde a recitação contínua de textos sagrados, ao consumo de charas, até à renúncia total de bens materiais (incluindo ascetismo extremo, como vagar nus e com o corpo pintado).

Hatha Yoga em Haridwar vs. as escolas e ashrams de Rishikesh

À primeira vista, porém, a prática claramente identificável de Hatha Yoga não me pareceu tão presente entre as pessoas comuns. Pelo contrário, dava a sensação de estar mais concentrada nas muitas escolas e ashrams de Rishikesh, relativamente perto, um local internacionalmente associado ao ensino formal de yoga.

A minha experiência em Haridwar, em 2019, foi a de encontrar menos ênfase na vertente postural e técnica do Hatha Yoga e mais expressão do que se poderia chamar a yoga da Bhakti - a prática da “devoção”.

Razões históricas para a redução de práticas abertas de Hatha Yoga

Esta diminuição de práticas públicas de Hatha Yoga entre a população geral tem, segundo alguns relatos históricos, uma base plausível. Na biografia de Theos Bernard, relativa ao seu percurso na década de 1930, descreve-se um período em que hindus e budistas foram perseguidos por ocupantes muçulmanos, o que terá forçado praticantes tântricos a manterem-se ocultos e a praticarem em clãs secretos.

Segundo essa narrativa, ao longo dos séculos, parte do conhecimento perdeu-se quando detentores de tradições orais morreram e textos fundamentais - copiados à mão em folhas de palmeira ou casca de bétula - se deterioraram com as monções ou foram destruídos por térmitas. Em contrapartida, o autor aponta que continuaria a existir um vasto repositório de Tantra praticado em contextos mais reclusos no Tibete, levando Theos a concluir que “tudo indicava que o norte [Tibete] era o meu destino”.

Um exemplo histórico frequentemente referido é o ataque de Timur, conquistador muçulmano que terá invadido Haridwar em 1398 e massacrado inúmeros peregrinos, num contexto associado a uma versão antiga da Kumbh Mela.

A visão de Glen Bernard (1935) e o retrato de uma tradição em retração

A ideia de que o conhecimento prático de Hatha Yoga se tornara difícil de encontrar surge também numa carta de 1935 de Glen Bernard, pai de Theos Bernard. Nela, descreve condições duras e um ambiente onde, segundo a sua perceção, o “bom material” (conhecimento de Hatha Yoga) era tão escasso que teria de ser procurado “a pente fino”, criticando a ignorância e a superstição que dizia encontrar.

Relata ainda ter iniciado pesquisa na Biblioteca Imperial (que descreve como a melhor da Ásia) e visitas a swamis em templos locais, concluindo que encontrou valor para filosofia e metáforas, mas pouco para uma yoga prática. Chega mesmo a afirmar que poucos saberiam yoga e que seria “quase uma coisa do passado”, acrescentando que “a yoga pode ser melhor feita nos Estados Unidos”, onde seria possível encontrar pundits que ajudassem na literatura necessária ao caminho.

Krishnamacharya (1934) e o receio de a yoga ser “vendida de volta” à Índia

É interessante notar que Krishnamacharya, no seu livro Yoga Makaranda (1934), faz observações semelhantes sobre a falta de interesse pela yoga na Índia da época. Na sua análise, essa indiferença poderia abrir espaço a que “ocidentais” dominassem a prática, a empacotassem como se fosse uma descoberta própria e a a comercializassem, regressando depois para a “vender” à Índia.

No mesmo texto, Krishnamacharya defende que a Índia não precisaria de enviar dinheiro para fora para obter recursos: haveria no país condições e riqueza suficientes. Critica também o facto de estrangeiros, segundo ele, terem “roubado” competências, conhecimento e tesouros da “mãe Índia”, apresentando-os depois como invenções próprias. Para Krishnamacharya, parte da responsabilidade residiria em os indianos lerem textos essenciais, mas não os compreenderem profundamente, nem os integrarem na experiência vivida - e avisa que, se “continuarem a dormir de olhos fechados”, os estrangeiros tornar-se-iam “gurus” de yoga, o que considera triste.

Defende ainda uma vida simples e disciplinada: a prática física (āsana-kriyā) seria suficiente, não seriam necessários excessos materiais, e a yoga recomendaria alimentação limpa e saudável. Sublinha a importância de incluir yoga no currículo escolar, expressando confiança na capacidade da juventude para seguir e valorizar o conhecimento do próprio país.

O percurso de Krishnamacharya e a procura de um guru a norte

Há ainda o dado relevante de que o próprio Krishnamacharya, em determinado momento, terá sido forçado a sair da Índia e a deslocar-se para norte, em direção ao Tibete, para encontrar um guru de Hatha Yoga, permanecendo depois cerca de sete anos a estudar com ele.

Este detalhe, por si só, reforça a noção de que, para alguns praticantes e estudiosos, certas linhagens e ensinamentos pareciam mais acessíveis fora dos grandes centros indianos do período.

Shaivismo em Haridwar e o que vi (e o que não vi)

Os devotos que observei em Haridwar eram sobretudo shaivitas (adoradores de Shiva). A presença de Shiva é visível e monumental, incluindo uma enorme estátua junto às margens do Ganges, que enquadra a paisagem e reforça o carácter devocional do local.

Uma corrente do shaivismo, conhecida como Shaivismo da Caxemira, propõe um caminho em seis etapas que inclui āsana, prāṇāyāma, concentração, meditação e iluminação, com paralelos a abordagens associadas ao yoga de Patañjali. Ainda assim, durante a minha breve passagem, o que encontrei com mais clareza foi sobretudo a expressão ritual e devocional, e menos a prática sistemática dessas etapas.

Entre a revitalização e a “ocidentalização” do Hatha Yoga

O facto de grande parte do Hatha Yoga praticado hoje derivar, em larga medida, do esforço de revitalização associado a Krishnamacharya é um testemunho da importância do seu trabalho. Ao mesmo tempo, de forma paradoxal, esse renascimento também contribuiu para a “ocidentalização” que ele receava: com a Índia a avançar na industrialização e na adoção de ideais modernos de matriz ocidental, o Hatha Yoga não foi necessariamente colocado no centro das prioridades institucionais.

Em paralelo, a procura espiritual vinda de fora da Índia intensificou-se. Com a perda de credibilidade de formas tradicionais de religião no Ocidente após a Idade do Iluminismo, muitos dos mais empenhados interessados em yoga começaram a chegar do exterior, preenchendo um vazio espiritual e criando um circuito global de ensino, viagens e certificações.

Um olhar atual: Narendra Modi e a popularização da yoga na Índia

Nos últimos anos, um dos maiores defensores da popularização da yoga entre os cidadãos indianos tem sido o atual primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.

No seu site oficial, constam várias citações suas, entre as quais:

  • “A yoga é uma das dádivas mais preciosas oferecidas pelos antigos sábios indianos à humanidade”: PM Modi
  • “A yoga é um passaporte para a garantia de saúde, uma chave para a boa forma e o bem-estar”: PM Modi
  • “Livre de doença, um caminho para o bem-estar - esse é o caminho da Yoga”: PM Modi
  • “A yoga torna-nos melhores indivíduos no pensamento, na ação, no conhecimento e na devoção”: PM Modi
  • “Praticar yoga ajuda a combater o stress e a encontrar paz”: PM Modi
  • “A yoga vai além das fronteiras da idade, do género, da casta, do credo, da religião e das nações”: PM Modi
  • “Num mundo de excessos, a Yoga promete contenção e equilíbrio”: PM Modi
  • “Num mundo de medo, a Yoga promete esperança, força e coragem”: PM Modi

Praticar junto ao Ganges: o ambiente que transforma a experiência

Praticar nas margens do Ganges, com mantras hindus a serem entoados ao fundo, a brisa a chegar das montanhas do Himalaia e um sentido de dedicação ao “Divino” que parece impregnar o ambiente e a vida consciente de quem ali vive, tornou a experiência de fazer Hatha Yoga em Haridwar intensa e difícil de esquecer.

Dois aspetos complementares: turismo espiritual e diferença de objetivos

Um elemento que ajuda a contextualizar o que se vê hoje em Haridwar é o peso do turismo espiritual. Tal como acontece em locais de peregrinação em Portugal - por exemplo, quando a dinâmica religiosa e a dinâmica turística se sobrepõem em certos períodos - também aqui se sente que nem todos estão à procura do mesmo: uns procuram ritual, outros procuram cura, outros procuram aprendizagem estruturada, e muitos procuram apenas “estar” num lugar sagrado.

Além disso, a diferença de objetivos também conta. Para parte da população local, a prática pode centrar-se mais na purificação, na promessa, no voto religioso e na devoção (Bhakti), enquanto muitos visitantes - especialmente estrangeiros - chegam com expectativas de treino postural, respiração e meditação em formatos de aula. Esta discrepância ajuda a explicar por que motivo o Hatha Yoga “visível” parece, por vezes, mais concentrado em espaços de ensino dedicados, em vez de estar espalhado pelo quotidiano de toda a cidade.

Por Scott White

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